Ontem, depois de intermináveis 5 horas de correção de provas pela manhã, no CETAM, sai daquele ambiente lentamente, descendo a escadaria e escutando o barulho das folhas de grandes árvores a dançarem com a suave brisa. O canto dos passarinhos. Uma sinestesia, como se me levasse a uma época remota dos velhos casarões. Lugar bucólico, mas lindo. Atravessando os grandes portões antigos, no outro lado, mais uma sensação prazerosa que curti ao máximo olhando para cada detalhe, a linda Praça da Saudade, com colunas gregas, reproduzindo um belíssmo jardim da Gécia Antiga. Respirei fundo aquele ar. Supirei sem saber o porquê... meu lado sentimentalóide estava a flor da pele.
Caminhei poucas quadras em uma das avenidas principais e, em seguida dobrei a esquerda e fui direto ao banco. De alguns metro de distância avistei um senhor que estava em pé segurando umas muletas; ele era alto, bem arrumado, barbeado, cabelo bem cortado... estava pedindo esmola, poxa vida! E quem não dava ele resmungava algo. Quando me aproximei dele, olhei de cima a baixo. Para mim não pediu nada e nem resmungou. Quando sai do banco, olhei em sua direção para ver se pediria algo, mas parecia que eu não existia. Conclui que ele de repente nem precisava das muletas, era um entre tantos golpistas que há por este mundo.
Segui meu caminho que era o de retornar para casa. Mas me lembrei que não tinha nada na geladeira e com certeza ia me dar fome e eu não ia querer sair mais de casa. Então, fui obrigada a passar no mercado. O trajeto entre o banco e o mercado era de duas quadras, muito longo devido a burburim de pessoas que estavam com familiares fazendo as compras de Natal. Comecei a olhar as pessoas, as vitrines, as lojas, tanta alegria em suas faces. Me lembrei de um passado que encheram meus olhos de lágrimas. Saudade de montar pinheirinho, preparar uma ceia toda especial para a família. Pequenos momentos de felicidade que na velhice vão fazer parte do álbum de recordações, das memórias...
Entrei no Carrefour, que horror de mercado muito mal organizado, abafado. Fiquei uma hora na fila esperando para ser atendida. Nisso, minha pressão baixando e algo me fazendo sentir as coisas de forma tão sensível. Foi o dia dos nós na garganta. Cena 1, falta de educação. Um homem jovem decidiu comprar um par de havaianas e não quis enfrentar a fila. Então, pediu para um homem que estava próximo de ser atendido para passar seu chinelo que custava 15 reais mas ele daria 20. Que suborno mais medíocre kkkkk. E cheio das explicações, mas nada que explicasse sua falta de educação realmente. Eu estava a 1 h ali quase desmaiando e aguentei firme para passar meia dúzia de besteiras também. O que me chamou a atenção em sua fala é que dizia assim: "não sou daqui", não deu para perceber, quase que perguntei de qual planeta ele era. Se queria dizer que não era manoara, piorou seu caso. Só porque é branco tem que ter privilégio?! Cena 2, o valor de um desejo infantil. Um menino estava brincando com uma bola enquanto seus pais esperavam para passar no caixa suas compras. A mãe diversas vezes pegava a bola do menino e a colocava na cesta de devoluções. O menino inconformado, pegava a bola novamente e colocava no carrinho de compras. Detalhe, o carrinho estava cheio de cervejas e refrigenrantes. Na hora de pagar tudo, o menino implorou para que levassem a bola. Mas a mãe não cedeu. Os olho dele se encheram de lágrimas e meu coração apertou. Me deu vontade de largar minhas compras e comprar a bola para ele. Mas também não sei se seria o correto, afinal aquela mãe que devia ter a sensibilidade e deixar de tomar algumas cervejas e dar a bola para o filho. Tadinho, era um menino de uns 10 anos, magrinho, via-se que era pobre. E a paixão que segurava aquela bola, parecia algo tão precioso. Fiquei pensando o quanto aquela bola transformaria sua vida se a levasse para casa. Quantas peladas iria poder jogar, quanto o seu tempo iria ser preenchido com um jogo saudável. Pequeno detalhe, brincar na infância, que pode evitar que crianças de periferias se tornem futuros marginais. Também pensei na questão do saber dizer não para um filho e assim ele aprender que nem sempre terá tudo que quer. Terá que se esforçar muito, estudar, trabalhar. Faz parte da vida o aprendizado. Finalmente, chegou minha vez no caixa.
Sai daquele ambiente que estava me agoniando. Atravessei a faixa de segurança e fui em direção ao terminal para pegar uma lotação. Ia olhando os prédios, quando algo me chamou a atenção. Pensei o que era aquilo meu Deus. Olhei tão rápido e algo me dizia para não olhar novamente. Senti medo. Mas minha curiosidade é algo mais forte que eu rsrrsrs. Olhei, olhei, olhei umas três vezes rapidamente, e tive vontade de vomitar. Tive vontade de largar tudo ali e sair correndo. Era um tronco pequeno de uma pessoa com pescoço e cabeça, mais nada. Tinha vida. Uma senhora negra e bem magra, no máximo 40 centímetros. Usava uma única peça de roupa, uma regata vermelha daqueles tecidos brilhosos e elásticos, bem pequena e um lenço na cabeça, em tons de azul. Não olhei mais para trás, apesar de ter tido vontade de voltar lá e conversar com ela, dar algo para comer que com certeza deveria estar com fome. Apressei meus passos antes que acontecesse algo pior, senti naquele momento que não era um bom dia.
Cheguei em casa e me fechei no meu mundinho das reflexões sobre a vida.
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