quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O MUNDO DAS APARÊNCIAS

         Até uma determinada idade, vivemos no mundo das aparências sem ter consciência disso. Depois, é uma descoberta dolorida em que nos leva a desacreditar nos valores morais impostos como modelos socialmente aceitáveis.
       Até os trintas anos, o ser está relacionado ao ter, ou seja, sou aquilo que tenho. Se tenho bens, dinheiro, uma família, eu sou perfeito, sou um excelente profissional, um pai de família exemplar, competente, inteligente entre tantos outros qualificadores que não levam em conta como foi que conseguistes tudo isso e nem a que preço. Socialmente falando isso não interessa no mundo das aparências. Pode ser o maior corrupto, mau caráter, desonesto, infiel, infeliz... o que contará serão as casas decimais de zeros na conta bancária, a possibilidade de ter a família unida eternamente mesmo que uma da partes tenha morrido em vida para que esse modelo não se quebre. Se não fosse verdade, por que muitos ainda não foram presos e têm um bando de puxa sacos elogiando, defendendo? E, por que muitos ainda não se separaram antes dos trinta? Ah! E, se passam dessa idade, fica ainda mais difícil...
         Depois dos trinta, começam as reflexões sobre os próximos dez anos. É o perído do balanço. Aí já chegam os 40 e, o desespero aperta. Não  há mais tempo para perder pensando. Somos obrigados a agir e tomar decisões. O ter perdeu seu glamour, queremos ser, ser algo de verdade. Crise de consciência? Não sei! Mas a maturidade é sábia. Claro que há as exceções. Mas o normal é repensar tudo e tentar fazer tudo aquilo que não foi feito em nome de uma suposta autorealização, mas que em verdade foi realização perante a sociedade para se sentir incluso.
            Isso me leva muitas vezes a pensar em Dom Quixote que para muitos, diria 99% , é louco. Porém, eu e uma pofessora da Salamanca não acreditamos nisso não; ela chegou a fazer uma tese a respeito. Mas continuando... ele fez o balanço de sua vida prestes a morrer. Então, nem se importou com nada, quis simplesmente ser tudo aquilo que sonhara. Quis ser cavaleiro medieval, enfrentar seus monstros interiores que eram enormes pensando no tamanho dos moinhos, ter seu momento lírico ao inventar uma Dulcinéia em que a beleza estava no ato de poder amar alguém e não a pessoa em si.
       Não sei se seria o ideal destruir certos conceitos tidos como absolutas verdades para os jovens. Cada um deve ter seu próprio tempo de SER e TER. 
      Heidegger em Sein und Zeit explorou muito bem esta questão. Ele define o ente que o ser-no-mundo vai ao encontro na ocupação de instrumento, de ‘ser-para’, devido ao seu caráter de serventia e manualidade. Até que um dia isso acaba causando um conflito interno tão sufocante em determinadas pessoas que acabam literalmente chutando "o pau da barraca". E decidem ser autenticamente felizes. Sem reprodução de modelos, sem aparências...
            Ou a própria idade, lá pelos 60 anos em diante se encarrega disso. Aí, só vivendo até os 100 para poder aproveitar mais uns 40 sem medo de ser feliz.


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